Diário do Bafici (2): Paulo Rocha no topo do mundo

10046_41071_67814

Sob a influência do cansaço, o segundo diário vai misturar dois dias e algumas ideias soltas. Não faz mal porque por enquanto o Bafici é todo do Paulo Rocha.

***

A mudança da sede para Belgrano trouxe algumas boas novas além da viagem longa de metrô. A principal delas é a proximidade do barrio chino e seus restaurantes bons e baratos (nem todos). Se o cartão voltar à vida, um pato morrerá.

***

Filas enormes no Teatro General San Martín, na Corrientes, onde fica a Sala Lugones (lá exibem boa parte dos clássicos). Não são para nenhum filme, mas para a peça Petróleo, do Piel de Lava, o grupo teatral das quatro atrizes de La Flor. Diz a plaquinha na boleteria: todo agotado hasta el final.

***

As melhores histórias de um festival surgem nas filas. Pode ter sido a influência da obsessão com as repetições do Mac e seu Contratempo, livro do Enrique Vila-Matas que acompanhou os primeiros dias de viagem, mas o caso é realmente inusitado: na noite de sexta-feira, um casal se enrolava para comprar o ingresso do cinema e a mulher desabafava com uma senhora, que queria comprar uns 500 ingressos para vários dias e atrasava a filma dos desesperados que queriam pegar a próxima sessão (quando o filme começa, não dá mais para entrar): “nós sempre atrasamos e perdemos a peça…  terminamos vendo qualquer filme que está sendo exibido no horário… e o filme é sempre ruim!” A senhora disse que poderia ajudá-los porque passou 4 horas em um café estudando toda as armadilhas da programação. “Você trabalha de graça para o festival”, o rapaz respondeu cheio de ironia besta. Mas ela foi rápida na tréplica, com aquela soberania típica das viejas portenhas, “eu trabalho para o meu prazer no festival”.  Eles perguntaram se o filme era bom e a senhora disse que deve ser triste porque é português. Foi O Desejado ou As Montanhas da Lua, um labirinto de amores e tensões políticas do Paulo Rocha sobre as entranhas palaciais portuguesas pós-Revolução dos Cravos. Fico imaginando o que passou na cabeça do casal quando João Pedro Bénard, que representava o filme (trabalhou na equipe) e a cópia restaurada em 35mm (é responsável por elas na Cinemateca Portuguesa) tentou explicar no debate o que era o mito do sebastianismo e como Rocha, mesmo com um filme mutilado pelos produtores franceses, conseguiu aproximá-lo a outro mito resistente da península ibérica, o de Don Juan.

***

Pouco antes no fim da tarde, na salinha menor do imponente Cine Gaumont, também no centro da cidade, houve a exibição do precioso documentário A Ilha de Moraes, sobre o escritor Wenceslau de Moraes, que compartilha com Rocha uma relação apaixonada e intensa com o Japão. João Pedro Bénard explicou que o filme era, de um certo modo, um autorretrato e que sua realização foi uma forma de exorcizar de vez o fantasma de Moraes, uma espécie de duplo luso-nipônico do diretor. Faltou, na programação, a elogiada ficção de quase 3 horas que Rocha criou anos antes sobre o mesmo escritor, A Ilha dos Amores.

***

No sábado, de volta a Belgrano, na fila para o documentário modernista de Paulo Rocha sobre o grande modernista português Amadeo Souza-Cardoso, Máscara de Aço contra Abismo Azul, havia um casal familiar na minha frente. Logo a mulher começa a reclamar:  “a gente sempre se atrasa e acaba vendo um filme ruim”! Reconheci o papo na hora. Não houve resposta nem outra interlocução, falou ao vento. Dei uma torcida no pescoço para confirmar a identidade dos dois e então veio a surpresa: ele era o mesmo homem, mas a mulher era outra! O “golpe do cinema português” no lugar do boa noite cinderela.

***

E a segundo sessão de Paulo Rocha no dia foi inesquecível. Exibição de O Rio do Ouro novamente com as presenças do João Pedro Bénard e da Isabel Ruth. E ela mais uma vez destruiu todos os protocolos e fez pouco caso (estou sendo gentil) do cinema português inteiro, incluindo Manoel de Oliveira, com quem trabalhou em várias obras-primas (Vale Abraão, Viagem ao Princípio do Mundo, Vou para Casa…): “muito dos seus filmes são bons para ouvir, outros são bons só para ver, meu favorito é O Passado e o Presente”.

O João Pedro Bénard só ria enquanto a atriz e Alvaro Arroba, o programador espanhol apaixonado pelos grandes filmes portugueses, discutiam sobre quem é maior, Fellini ou Oliveira. Impressão é a de que o filme não tinha acabado e que a Isabel Ruth pegou o microfone com as mãos ainda cheias de sangue. Por enquanto, é a obra-prima de Rocha. Mais incrível ainda que o Mudar de Vida. Filme de maturidade, mas daqueles que chegam nesse estágio sem perder o desejo de invenção (pudera, havia filmado dois documentários pouco tempo antes, um sobre Oliveira e outro sobre Imamura). E tem a luz mais bonita que já vi num filme. Acho que faz jus à famosa máxima de Mizoguchi, o grande mestre do português: “é preciso lavar o olho após cada plano”

***

Se a tensão política vertiginosa de O Desejado sugere um diálogo com o Terra em Transe do Rocha de cá, acho que O Rio do Ouro daria uma sessão dupla iluminada com O Viajante do Paulo Cesar Saraceni, realizado naqueles mesmos anos do enterro da década de 1990.

***

Uma das coisas que eu mais gosto em Buenos Aires, além da quantidade infinita de livrarias (já achei uma preciosa coletânea dos fantasmas do Henry James) é que quase todos os restaurantes colocam o cardápio com os preços na entrada.

 

 

 

 

 

Diário do Bafici (2): Paulo Rocha no topo do mundo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s