Diário do Bafici (4): A milonga de Paulo Rocha

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De novo, as histórias repentinas das filas.

À espera da sessão do Thriller, um jovem apareceu com um jornalzinho de 80 pesos e começou a falar sem parar. A publicação de algum movimento socialista tinha como tema de capa a Venezuela. Falava dos assassinados (por militares e paramilitares), questionava o chavismo e, se entendi bem, afirmava que a única saída era o povo tomar as ruas. Descobriu que eu era brasileiro e aproveitou para mostrar as páginas dedicadas ao país: “este artículo es de un compañero brasileño, se llama “por qué Bolsonaro no es fascista”. Antes que eu esboçasse qualquer reação, ele imaginou meu espanto e emendou: “sí, sí, necesitamos conocer realmente a nuestros enemigos!” e seguiu, mostrando a outra página, “este es un texto sobre los muertos del PT”.  Os artigos jaziam assim, lado a lado, como dois grandes amigos. A fila disparou e então perdi de vista o companheiro socialista, mas gostaria de ter dito: mi amigo… lo que necesitamos conocer realmente en los días de hoy son nuestros amigos.

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Talvez alguém argumente que o personagem de Luis Miguel Cintra de A Raiz do Coração (2000), a fantasia musical  política de Paulo Rocha, também não é fascista. O nosso presidente até poderia dizer que ele é um homem de esquerda. João Pedro Bénard introduziu a sessão explicando que a obra foi um fracasso de público e crítica, mas tirou da cartola um fragmento de um texto de seu pai, João Bénard da Costa, uma defesa apaixonada não apenas do filme, mas de uma ideia de cinema que jamais vai trocar o esplendor da mise en scène pela arte pálida do storytelling.

Isabel Ruth novamente roubou a cena e já chegou dizendo que não lembra nada. “Procurei na internet e descobri que é sobre um político fascista que se apaixona por uma travesti, vou acompanhar a sessão com vocês para ver se é isso mesmo”. Depois lamentou que Rocha não a tenha escalado para fazer o papel da personagem surda, alegando que ela foi inspirada em uma história sua dos anos 1960. Nas boates italianas, Isabel fingia ser surda para evitar os galanteios dos varões abusados daquela terra: “eu só queria dançar”. Alvaro Arroba, o programador espanhol que travou os melhores embates nos últimos dias, disse que pelo menos o Manoel de Oliveira a colocou como surda na obra-prima Vale Abraão. Ela não perdeu a chance: “quando você programar uma retrospectiva do Oliveira e me trouxer, a gente fala sobre isso”.

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Um dia após A Raiz do Coração, houve as duas últimas exibições do ciclo “Ruth y Rocha”: Vanitas (2004) – acompanhado do assombroso curta do início dos 1970, A Pousada das Chagas – e Se Eu Fosse Ladrão, Roubava (2013), um filme-despedida que encena de forma emocionante a morte do diretor, revisitando trechos de sua obra inteira. Revela algo que o ciclo já sugeria: a morte sempre esteve lá.

E o último filme também possibilitou que os espectadores se despedissem do próprio ciclo, um momento realmente histórico. Foi a primeira vez que uma retrospectiva de Rocha arrebentou a cordinha que limita as fronteiras da Europa. Todos os agradecimentos: João Pedro Bénard, pelo cuidado com as cópias restauradas maravilhosas (em 35mm e DCP), o programador Alvaro Arroba e, é claro, Isabel Ruth, que nos últimos dias só não fez chover na calorenta Buenos Aires. Cantou à capela algumas das belíssimas canções dos filmes, leu e dedicou a Rocha um poema de Borges (Milonga de Manuel Flores), falou da visita de seu grupo de teatro ao Brasil nos anos 1960, quando conheceu Bandeira, Drummond, Vinícius e Cecília. Explicou com mais detalhes o que tanto a incomoda nos filmes exibidos: “ao contrário do Oliveira, ele não tinha muita certeza do que queria. Seus filmes são confusos, eu fico angustiada quando estou em cena e não sei se o espectador está compreendendo. Fazer filmes é uma grande responsabilidade. Nós começamos nossas carreiras juntos, mas depois cada um pegou um caminho”. No fim de tudo, visivelmente emocionada, arrebatou: “eu amei muito ele”.  Uma relação intensa, com distintos momentos e aparentemente complexa. Mas eternizada em uma obra inteira. 

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Nos intervalos do Paulo Rocha tardio, o jovem Henry James. A coletânea de fantasmas é uma edição de bolso espanhola preparada (e comentada) pelo especialista Leon Edel. Já conhecia o primeiro conto, La leyenda de ciertas ropas antiguas, realmente o primeiro que James escreveu sobre o tema e que inspirou toda a parte da casa de Céline e Julie vão de Barco do Rivette. O segundo, ainda escrito na juventude, é De Grey, um relato romántico. Dois contos de maldição familiar que já trazem aquela qualidade absoluta da escrita do Henry James, a de conseguir falar simultaneamente do sobrenatural e das pequenezas grandiosas dos relacionamentos amorosos.

Ella, ciega, sin sintido y sin remordimientos, vaciaba de vida el ser de Paul. Ella florecía y prosperaba; él decaía y languidecía. Mientras ella vivía por él, él moría por su causa.

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A última sessão do dia foi cancelada. A inglesa Muriel Box deu lugar ao peruano Chan Chan, restaurante meio escondido em uma das vielas que nos tiram da Praça do Congresso. O preço é bom e a comida é uma delícia.

 

Diário do Bafici (4): A milonga de Paulo Rocha

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