Diário do Bafici (1): A morte a rir dos nossos verdes anos

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Viagem longa, terra e mar, tudo dá certo e dá errado ao mesmo tempo. As horas se encaixam de tal forma que o itinerário sugere ter sido programado não pelo acaso mas por um supercomputador libriano. Enquanto isso o terror tecnológico planeja a vingança: telefone e o cartão renunciam e parece irrevogável (Justine e Juliette vão de ônibus e de barco). 
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Deu tempo de pegar o metrô quente e chegar em Belgrano – que roubou da Recoleta o posto de sede do festival – para a primeira e mais planejada sessão. A cópia restaurada de Os Verdes Anos (1963) abriu uma das principais retrospectivas do Bafici neste ano, dedicada a Paulo Rocha e a Isabel Ruth, nomes centrais do novo cinema português dos 1960. A atriz apresentou (“é um retrato da minha juventude”) e depois comentou (“na época, achei horroroso, hoje acho que éramos ingênuos”). Ela deve ter seus motivos pra não fazer muito caso desse marco cinematográfico de Portugal, mas não é toda história que faz um aparente namorinho de portão virar outra coisa da forma desconcertante como esta faz. Acho que faz o mesmo com Lisboa, da capital turística à cidade pesadelo. Mas as narrações do tio do protagonista roubam a cena dos pombinhos (nem tão) apaixonados. Não lembro bem o texto, mas lá pelas tantas surge essa maravilha: “nunca hei de saber a razão do que aconteceu naquela noite porque não sei o que aconteceu naquela tarde”.
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Depois da sonhada fugazzeta, a segunda sessão do dia com o Barbara Rubin and The Exploding NY Underground, de Chuck Smith. É a mesma década do filme lisboeta, mas o universo é outro. O documentário resgata a história de uma das figuras mais iluminadas do underground americano, diretora de Christmas on Earth (1963), filme-performance ultra erótico e provocador com direito a projeção dupla (uma imagem maior preenche toda a tela com bocetas gigantes e outra imagem menor, centralizada, traz delirantes orgias psicodélicas).
Há um cuidado biográfico porque Rubin, apesar de toda a importância no cenário artístico novaiorquino dos anos 1960, é hoje uma personagem praticamente esquecida. Descobrimos tudo: as experiências com drogas na adolescência, o encontro salvador com Jonas Mekas, a produção de sua obra-prima (aos dezoito anos!), a amizade com Allen Ginsberg, Shirley Clarke, Bob Dylan (ela está na foto da contracapa de Bringing It All Back Home), Andy Warhol (ela o levou para o show de uma banda nova, o Velvet Underground…), o pedido para que Walt Disney produzisse uma continuação de Christmas on Earth com um elenco que incluía Beatles e Rolling Stones, a conversão ortodoxa nos anos 70 e sua morte repentina. A quantidade de material de arquivo impressiona e confirma aquilo que todos dizem no filme: ela tinha uma energia especial. Antes do longa, houve uma linda homenagem em curta-metragem, Keep Singing: A Tribute to Jonas Mekas, também dirigido por Chuck, mas o mestre lituano certamente irá concordar: hoje todas as  estrelas da noite são da Barbara Rubin. Os calos nos pés também.

 

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