Diário do Bafici (6): A vanguarda contra-ataca

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Começo o novo diário com o que sobrou de um texto interrompido há dois anos. Fazia parte de outra série de publicações sobre o Bafici. Naquela edição, a dezenove, Nanni Moretti era homenageado e a obra-prima mítica do maestro Fernando Birri, ORG, era exibida em sua versão integral e restaurada. A Vendedora de Fósforos, de Alejo Moguillansky, ganhava o prêmio principal da competição argentina. No MALBA, a exposição do coletivo canadense General Idea apresentava toda uma trajetória de arte e vida concluída com uma das obras mais tristes já vistas neste mundo: Fin de siècle, um autorretrato dos artistas, outrora festivos e desejantes (1960 e 1970) como três focas isoladas em meio a uma imensidão de gelo, em 1994.

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A vanguarda está sempre na mira de todos. No Bafici muitos filmes problematizaram a criação experimental. Io Sono un Autarchico, o primeiro longa de Nanni Moretti, um filme manifesto. Fim dos anos 1970. Outro mundo.
Em A Vendedora de Fósforos, a arte de vanguarda também é problematizada, mas já num sentido de retomada. Qual a relevância política da arte de vanguarda hoje?

Neurose, cinismo (outra geração)
A genialidade de Moretti é saber trabalhar isso numa perspectiva autocrítica.

Uma das coisas ótimas do Bafici é que a resposta pode vir na sessão do dia seguinte.
Quem guardou espaço na grade para ver a projeção histórica da cópia restaurada de ORG, de Fernando Birri, certamente teve contato com um dos mais (…)
O filme foi restaurado pelo Arsenal de Berlim. Até então, a existência da cópia integral com 3 horas de duração era tida como uma lenda.
Só havia a cópia remontada para o lançamento comercial, com 104 minutos. Não dá nem pra imaginar como pode existir um corte comercial desse filme.

Birri levou dez anos para fazer: 1967-1979. Filme colagem, convulsivo, psicodélico, abstrato. Stan Brakhage encontra Carmelo Bene? Questões do período estão todos lá, amor livre, revolução, a própria atuação do cinema (entrevistas com Glauber, Godard) mas tudo fragmentado.

Esgota o período da geração de 68. É o auge.
É natural que a geração de Nanni Moretti tenha um pé atrás. Neurose, cinismo. Outro mundo.

A exposição do MALBA apresenta o trabalho do coletivo canadense General Idea.
Começa com a subversão sexual, a libertação do corpo, a (…), termina com a AIDS, com o isolamento, a morte. 1967-1994

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A ideia do texto era falar sobre esse vai e vem que incomoda e inspira na mesma medida: o ataque à vanguarda e o seu eterno retorno (poderíamos dizer eterna vingança). Também queria identificar algumas questões históricas marcantes que feriram e mataram a geração dos 1960 através das doenças da alma e do corpo. Não sei se o culpado foi o cansaço, a falta de inspiração ou o assalto da melancolia, mas o texto nunca foi adiante.

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Em 2019, as aventuras mais extraordinárias ainda não estiveram na mira de ninguém (em dois anos o tempo já é outro), mas resgato os escombros escritos porque uma das grandes qualidades do Bafici são as retrospectivas de realizadores que não se enquadram mesmo em uma perspectiva mais expandida do cinema contemporâneo que pede passagem nos festivais.

No ano passado – a memória ainda guarda orgulhosa muitas imagens – o mexicano Teo Hernández ganhou uma mostra quase completa, em exibições históricas em Super-8 na Sala Lugones. Agora, na mesma sala e em 16mm, a grande atração são as sessões comentadas da austríaca Friedl vom Gröller – que também assina alguns filmes como Friedl Kubelka, sua alcunha reconhecida na arte da fotografia. Ela foi casada durante anos com Peter Kubelka e compartilha com ele algumas vontades radicais em relação ao cinema: a defesa irrestrita da película, o questionamento do uso do som, o desencorajamento dos subtítulos grudados na imagem. “Confio nelas”.

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As malditas correrias: consegui pegar apenas duas das três sessões que apresentavam uma pequena parte dos mais de 150 filmes curtos que Friedl já produziu. Na primeira noite, marcada pela exibição de Max Turnheim, 40 minutos que registram o tempo passando a partir de serenos retratos filmados, ano a ano, do jovem que dá título ao filme, chamou atenção a transgressora aproximação entre as artes performáticas da psicanálise (ela atuou profissionalmente na área por dez anos) e dos Acionistas Vienenses. Em um filme como Boston Steamer, o desejo performático resulta em uma grande chuva de merda na cara da plateia, em uma das apreensões escatológicas mais inventivas (e belas!) que o cinema já viu e que certamente verá.

O terceiro programa de curtas apresentava uma série quase integralmente dedicada aos rostos. Se algumas obras recontextualizam e/ou tensionam o retrato fotográfico a partir da duração cinematográfica, outros revelam pequenas sugestões narrativas que parecem fragmentos de um filme de espionagem ou daqueles atrevimentos eróticos dos primórdios do cinema. A aventura de Friedl vom Gröller com os rostos não encontra fronteiras e nem limita-se a conceitos rigorosos. Percebe-se uma vontade de pensar cada filme como um novo jogo de regras próprias. O resultado é essencialmente diverso e dialoga com diferentes momentos em que a história do cinema lidou com os rostos: num intervalo de 3 minutos, às vezes saímos de um registro desajeitado que lembra os filmes jornalísticos do início do século para um instantâneo misterioso que recorda os gloriosos crimes que o cinema underground dos anos 1960 cometeu.

“Roubo algo da pessoa, calculo a duração do filme e provoco uma ação espontânea. É um experimento científico”. No fim de tudo, a citação de uma frase de um físico alemão colocou a moldura exata na gloriosa noite de crimes de Friedl vom Gröller: “o espaço de maior entretenimento no mundo é o rosto humano”.

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A vanguarda interrompida: abandonei ainda no início a promissora exibição do contemporâneo espanhol Letters to Paul Morrissey (2018), de Armand Rovira, exibido após o incrível curta de Martín Rejtman, para pegar o último metrô. Em Buenos Aires, eles viram abóbora um pouco antes da meia-noite.

Inspirado por uma provocação de Friedl vom Gröller no fim do primeiro debate, resolvi roubar um rosto pra mim. O acaso colocou na minha frente uma senhora que lia um romance policial da lendária coleção El Séptimo Círculo, organizada por Borges e Bioy Casares. Só peguei o título argentino: “Los toneles de la muerte”. Notei que o tempo entre aquela estação e a outra é basicamente o mesmo dos pequenos rolos em 16mm utilizados pela austríaca. De repente, um acidente: flagrei aquele intervalo luminoso quando os olhos fogem das páginas durante alguns segundos e são tomados por uma vibração indescritível. Alguma coisa aconteceu.

Diário do Bafici (6): A vanguarda contra-ataca

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