Diário do Bafici (7): Os protagonistas

SHAKTI

 

Os foguetes de casa dão sinais de vida com a cara de plástico do nosso antigo monarca estampada em cartazes colados nas paredes do trecho mais estreito de uma rua aparentemente kirchnerista, a Rivadavia. Nueva fecha después de un éxito absoluto de ventas: Roberto Carlos. 

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E o ciclo de Muriel Box continuou com mais duas sessões: A Chave Secreta (1959), obra menor que escorrega entre o melodrama e a investigação policial (o único não roteirizado por ela entre os programados, algo a destacar), e uma joia inacreditável: The Passionate Stranger (1957).

A sinopse escrita pelos programadores dá uma ideia da aventura: en esta deconstrucción de la novela sentimental, Muriel Box satiriza la confusión entre ficción y realidad. Un chofer halla un manuscrito de la esposa de su jefe y, convencido de que la historia lo incluye en los deseos reales de la mujer, comienza a recrear las acciones de su personaje.

O cenário bucólico inglês faz o palco para Box colocar em jogo diversos personagens e intenções: um pobre siciliano que precisa de qualquer emprego, uma jovem empregada que tem o coração na mão, um marido paralisado após a visita da poliomielite e uma escritora que usa tudo isso como matéria-prima para a criação. A releitura da história a partir da ficção dá cor ao que era preto e branco e reconfigura todas as relações entre os personagens, colocando pimenta no marasmo cotidiano a partir de uma paixão proibida e de um assassinato premeditado. Mas o filme dá outra volta no parafuso e toma um rumo um tanto quanto quixotesco. No diálogo irreconciliável entre realidade e ficção, surgem questões ainda incendiárias sobre gênero e classe.

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Um intervalo no Bafici para acompanhar uma sessão antológica do Bazofi, a mostra do grande arquivista, cinéfilo e pesquisador Fernando Martín Peña, na sala de cinema do MALBA. O filme? A Epopéia dos Anos de Fogo (1961), obra histórica da diretora russa Yuliya Solntseva em 35mm com uma cópia cheia de marcas da vida.

Fiquei a sessão inteira pensando no êxtase da Juliana Costa, a grande divulgadora das cineastas russas em Porto Alegre, assistindo en fílmico a essa obra-prima antifascista com pequenos lampejos do (sur)realismo socialista típico da diretora. No fim de uma tarde de sexta-feira,  o despertar da Ucrânia mitológica a partir da grande descoberta, “o segredo da universalidade humana”. Um momento glorioso da viagem.

A milonga de guerra soviética foi tão arrebatadora que saí sem rumo do MALBA e arrisquei uma pernada até o Cine Gaumont, onde aconteceria a exibição do novo filme de Martín Rejtman. Foram duas horas andando pela cidade com a cabeça nos redentores céus da Ucrânia que a Yuliya Solntseva filmou.

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Martín Rejtman, o grande trovador do Nuevo Cine Argentino, só precisa de vinte minutos para narrar os fracassos cotidianos de um jovem judeu que entra em depressão após a morte da avó e um rompimento desastrado com a namorada. A duração de Shakti (2018) desconcerta porque intensifica todas as qualidades do diretor, um dos principais contadores de histórias do cinema contemporâneo: os golpes das elipses, as cenas brevíssimas e as pontuais intervenções da narração já conhecidas em filmes como Rapado e Dois Disparos ficam ainda mais assombrosas.

O esporte favorito de Rejtman é encontrar o absurdo em uma classe média portenha neurótica, ensimesmada e tomada por uma apatia incontornável. Mas tem algo a mais neste filme que surge apenas na conclusão. Quem é o real protagonista dessa história? Em galáxias absolutamente distantes, a verdadeira autora dos bolinhos de batata do filme de Martín Rejtman e o Dom Quixote da Sicília do filme de Muriel Box me fizeram pensar sobre protagonistas impossíveis a partir do momento em que os territórios de uma história são delimitados.  

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Fui mordido pelo bicho da semelhança e então fiquei me perguntando se também não há um protagonista escondido em Santiago, Itália (2018), o novo documentário de Nanni Moretti, filme de encerramento do Bafici 2019. Por que o interesse nessa história agora? Ao longo da projeção, a questão vem algumas vezes à cabeça – em uma sequência a impressão é a de que o filme só existe para que Moretti possa dizer na cara de um torturador chileno, um velho desprezível que exige a imparcialidade na entrevista: io non sono imparziale.

Mas há algo mais, é claro. O coração do filme, o título já sugere, é o episódio do refúgio dos perseguidos políticos na Embaixada Italiana, em Santiago, e a consequente fuga para o país europeu. Uma história que já conhecemos, inclusive, em recentes documentários brasileiros como Diário de uma Busca, de Flavia Castro, e Retratos de Identificação, de Anita Leandro.

O filme italiano reconstrói a partir de depoimentos a alegria e o terror chileno nos anos 1970; da sensação dos dias mais felizes das nossas vidas (com a vitória democrática de Allende), da sensação de um socialismo asfixiado por todas as instâncias do poder (auxiliadas pelos Estados Unidos), à sensação de um pânico profundo pós-golpe de estado. Esquiva-se de algumas complexidades, já muito bem investigadas em obras chilenas (os documentários de Patricio Guzmán e Miguel Littin, devidamente entrevistados por Moretti) ou no colosso francês de Chris Marker, O Fundo do Ar é Vermelho. Talvez porque a ideia realmente seja apenas contextualizar a história para um público europeu contemporâneo que a desconhece. Aí começa a aparecer, de fato, o protagonista escondido.

A certeza do real interesse de Moretti nessa história – antiga para os europeus e eternamente contemporânea para os sul-americanos – vem mesmo no último depoimento, quando um dos chilenos radicados em Milão fala sobre as diferenças de um país que recebeu tão bem os refugiados nos anos 1970 e o desastre atual, com um povo completamente obcecado pelo consumo e pelo individualismo. Mais alguns segundos, uma cena musical, e o fim interrompe a história. O protagonista que quase nunca está lá no filme de Nanni Moretti é a Itália contemporânea. Mas há (sempre há! mesmo adormecida, alguma utopia sempre existirá no filmes de Moretti sobre a esquerda) o sonho com esse protagonista impossível, uma Itália acolhedora e sensível diante dos horrores do mundo.

Diário do Bafici (7): Os protagonistas

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