Diário do Bafici (3): Christina e Marina

 

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As buzinas insistentes e eufóricas anunciam que o Racing foi campeão, os periódicos lembram que nesta mesma data, há 50 anos, o Almendra de Luis Alberto Spinetta fez seu primeiro show. Um domingo com cheiro de história em Buenos Aires coroado com a exibição de gala, na sala gigante do Cine Gaumont, da cópia restaurada (e sem cortes!) de Thriller – Um Filme Cruel (1974). E mais: com a presença da garota do tapa olho, Christina Lindberg. Ela é uma das homenageadas desta edição.

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Durante a projeção do lendário filme de vingança do sueco Bo Arne Vibenius, lembrei o tempo inteiro da saudosa Sala P. F. Gastal e de como o Cristian Verardi e o Carlos Thomaz Albornoz teriam saído absolutamente extasiados da sessão. Christina revelou muita coisa, inclusive os detalhes sórdidos: a famosa cena do olho foi feita sem autorização com um corpo de uma jovem que havia se suicidado na noite anterior. É o tipo de informação que o Thomaz compartilha com o público para depois encerrar o debate com a sua frase clássica: “no mais, o filme fala por si…” Uma noite de Projeto Raros no Bafici.

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A atriz avisou, ainda na apresentação, que já era conhecida na Suécia pelos filmes eróticos antes de Thriller, mas que as cenas pornográficas não contam com o seu corpo. Foram realizadas por um casal chamado Romeo e Julieta, famoso pelo sexo nos palcos dos inferninhos suecos. Depois, no debate, explicou sobre como o filme hoje é exibido em celebrações feministas, mas que na época foi rechaçado por mulheres ligadas à universidade em seu país, especialmente porque Christina era a estrela nua das capas de revista, dos filmes exploitation. Um corpo à venda. “Minha família era da classe operária, eu não tinha contato com o que estava sendo pensado nas universidades”.  O filme, a bem da verdade, não agradou ninguém na Suécia e acabou banido, mesmo com versões suavizadas (20 minutos de cortes).

Visto hoje, fica a impressão de que a primeira parte, quando a protagonista sofre todo o tipo de abuso e humilhação, é longa demais. Foram os anos dourados do exploitation, é claro, então todas as perversões humanas acabam virando matéria prima cinematográfica. Mas, por outro lado, as repetições angustiantes reforçam a ideia de um processo quase maquinal de desumanização daquela mulher, colocada à força no mercado do sexo. A atriz defendeu as cenas de violência e pornografia: “são importantes porque justificam a vingança”. O que eu acho mais interessante é que o espetáculo prometido nunca surge. A mudez da personagem ajuda, mas toda a vingança é amarga, com aquela câmera lenta estranhíssima nas cenas de ação. Ao contrário de outros filmes festivos do subgênero rape and revenge, Thriller é totalmente fúnebre, a mulher que mata já está morta. Lembra a protagonista do fantasmagórico A Mulher que Inventou o Amor, de Jean Garret, roteirizado por João Silvério Trevisan, um belo par para o filme de culto sueco (ah se o Tarantino descobre a obra do Garret…).

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Dentro das fronteiras do festival, acho que o Thriller poderia render um debate interessante (ou uma grande batalha campal) exibido ao lado de Ma nudité ne sert à rien, a nova obra da Marina de Van, um autorretrato da artista enquanto mulher que trabalha com o corpo e envelhece. Os sonhos me tiraram um pouco das reflexões da diretora, mas gostaria de ver o filme sobre uma mulher que está nua (mas nunca objetificada) e que fala sobre sua condição o tempo inteiro ao lado do exploitation sueco sobre essa garota quase adolescente que está nua, não fala nada, sofre todos os horrores para uma câmera que quase baba nela, e depois parte para uma vingança contra o mundo culpado.

Abraçando as ideias ruins até o abismo. Para resgatar o espírito dos filmes soft porn lésbicos dos anos 1970, a sessão dupla poderia se chamar: Christina e Marina.

 

 

Diário do Bafici (3): Christina e Marina

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