Diário do Bafici (5): Muriel Box

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Outra atração inevitável desta edição do Bafici é a mostra de filmes da diretora Muriel Box, que ainda segue nas sombras da história do cinema, mesmo com as mudanças de paradigmas dos últimos anos. Há poucos meses, a inglesa ganhou uma grande retrospectiva no Festival de San Sebastian, na Espanha, mas suas obras são pouco acessíveis mesmo nos recantos de cinefilia mais fervorosa na internet.

O público na Sala Lugones dividia-se basicamente entre as jovens mulheres com os lenços verdes, provavelmente com ganas de descobrir uma pioneira feminista do cinema, e aquela tradicional terceira idade cinéfila (exatamente os mesmos tipos no mundo inteiro!) com ganas de ver clássicos dos anos 1950 na tela grande.

Creio que todos saíram contentes das sessões, mas se havia algum cinéfilo mais conservador (ou nem tanto) afundado na poltrona, este foi obrigado a ouvir algumas verdades indigestas. Ao menos com os dois primeiros filmes vistos por aqui, Street Corner (1953) e As Sete Mulheres de Minha Vida (1959). Muriel Box escancara seu cinema feminista: as ideias não estão na entrelinhas, escondidas numa trama, ela fez filmes para falar da condição da mulher acima de qualquer coisa.

O que chama atenção, de imediato, é a vontade de ter muitos pontos de vista, muitas perspectivas em histórias fragmentadas sobre temas bem definidos. Box, que também assina os roteiros, não deseja apenas contar uma história, mas dissertar sobre algo. Em Street Corner, o algo é o cotidiano de mulheres ainda no contexto delicado e empobrecido do pós-guerra britânico, tendo a polícia feminina e jovens que acabam se aproximando do crime como foco principal. Em As Sete Mulheres de Minha Vida (no original, the truth about women; na Argentina, lo que son las mujeres), são as experiências de diferentes mulheres com o casamento no início do século vinte.

Sempre com uma perspectiva histórica e social, Muriel Box fala abertamente sobre bigamia, prostituição, adultério, questiona as consequências das relações conjugais e da maternidade, tudo a partir do ponto de vista das mulheres. Alguns temas espinhosos para a época (e que ainda são contemporâneos, ao menos em países moralmente subdesenvolvidos como o nosso) e impossíveis na Hollywood dos anos 1950, ainda sob as regras morais do Código Hays.

Em uma cena marcante de Steet Corner, um policial misógino diz para uma colega que não gosta da presença das mulheres na corporação. A resposta é firme e Muriel Box aproveita a personagem para dar nome ao boi: “you are a woman hater“.  Logo no início de As Sete Mulheres de Minha Vida, ainda nos primeiros anos do século vinte, um homem conhece uma jovem sufragista que o desconcerta completamente ao afirmar que a mulher não precisa ser submissa financeiramente ao marido. Pelo contrário: se for o caso, ela pode sustentar o homem! Mais adiante, o mesmo sujeito aprenderá que no Ocidente o casamento é uma “barbaric institution” porque uma mulher sozinha precisa ser ao mesmo tempo: esposa, mãe, dona de casa, parceira de trabalho e escrava. Depois, veremos na prática como a maternidade pode anular a vida de uma jovem artista promissora com a cumplicidade de um marido que sequer percebe o que está acontecendo. No fim de tudo, já em meados do século, os varões seguem reclamando: “eu quero uma esposa que seja uma esposa, o problema das mulheres de hoje em dia é que elas não querem ser mulheres, elas querem ser homens”. A resposta da personagem que ouve as jeremiadas masculinas é serena e absolutamente contemporânea: “você está errado, elas só querem ser mulheres. Mas temos uma outra definição para o significado disso, ser uma mulher significa… ser uma pessoa. A equal partner in the business of life“.

Nada mais a dizer.

 

 

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