BAFICI (7): El Pampero Cine

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A premiação da competitiva argentina do BAFICI consagrou o novo filme de Alejo Moguillansky, La Vendedora de Fósforos. O diretor é um dos quatro fundadores da El Pampero Cine, produtora independente que surgiu em 2002 e já tem uma série de obras notáveis em seu catálogo – Balneários, Histórias Extraordinárias (de Mariano Llinás); O Escaravelho de Ouro (de Moguillansky); Ostende, A Mulher dos Cachorros (de Laura Citarella – o segundo em co-direção com Verónica Llinás).

Quem viu O Escaravelho de Ouro (2014), co-dirigido pela sueca Fia-stina Sandlund, reconhecerá o nervo cinematográfico de Moguillansky em La Vendedora de Fósforos. O primeiro filme aposta todas as fichas numa espécie de jogo de tabuleiro narrativo, empilhando digressões numa trama metalinguística que aproxima a caça a um tesouro jesuíta, a referência do conto de Edgar Allan Poe, as biografias de uma pioneira feminista da Suécia e de um mártir socialista da Argentina. O resultado é uma coletânea de comentários repletos de autoironia sobre o estado das coisas do cinema independente, contrapondo as relações de poder entre o velho machismo e o neocolonialismo dentro do circuito de festivais e coproduções.

Na nova obra, o conto de Hans Christian Andersen é quem irradia outras presenças: Robert Bresson, Ennio Morricone, Gudrun Ensslin do Grupo Baader-Meinhof, Leonardo da Vinci e por aí vai. A partir dos ensaios de uma adaptação contemporânea do texto clássico, em registros documentais no célebre Teatro Colón, a obra abre a cena para várias questões: a crise financeira (a cada sequência surge uma faísca da delicada situação política argentina), a crise artística (a insatisfação do músico concretista Helmut Lachenmann, a dificuldade com a nova mise en scène, a relação entre vanguarda e revolução), a crise familiar (o diretor da peça e a esposa dividem-se entre os trabalhos, a filha pequena e os buracos no orçamento).

A diferença mais destacável para O Escaravelho de Ouro aparece na depuração que o diretor opera dentro dessa ideia particular de cinema como uma reunião de favoritos (ou, fazendo jus ao temperamento lúdico de suas criaturas, como um álbum de figurinhas em som e imagem). No debate, Moguillansky revelou que várias histórias paralelas caíram na montagem final, que acabou realmente focada no vai e vem dos protagonistas. Dessa forma, os desvios narrativos típicos do diretor, que ainda seguem explícitos, ganham mais personalidade dentro de uma colagem que transita entre o ensaio filmado, a comédia nonsense, a melancolia cinéfila, o inconformismo infantil e a screwball conjugal.

E se a ideia das ficções acima dos 40 graus é uma marca do nosso tempo, fica cada vez mais claro que o cinema da El Pampero Cine é um dos faróis contemporâneos – querela antiga, quando o relato do mundo (no caso da produtora argentina, muitas vezes é o relato do relato) toma o lugar do relato no mundo (o farol desse cinema, no início dos anos 2000, era outro argentino: o Lisandro Alonso de A Liberdade). Podemos colocar tranquilamente no altar as Histórias Extraordinárias de Llinás, um monumento de quatro horas e infinitas conspirações hitchcockianas (não apenas pelo entendimento comum de que a ficção pode constituir o mundo, mas pela presença de vários motivos clássicos do cineasta inglês: o homem errado, o homem que sabia demais, a janela indiscreta…), inacreditavelmente construídas apenas com uma narração em off. Menos conhecido, Ostende, de Citarella, situa a mulher como protagonista de um tipo de trama que a arte dos filmes nos acostumou a enxergar através dos homens: a especulação imaginativa sobre um possível crime – mais uma vez é através da palavra falada que a fabulação (e alguma perversão) toma conta da obra. Uma pena que o novo de Mariano Llinás, a elogiadíssima primeira parte de La Flor, destaque do Festival de Rotterdam de 2017, não tenha entrado na programação de BAFICI. Ficou a vontade.

BAFICI (7): El Pampero Cine