Jauja: las habladurías del mundo

Jauja_Lisandro_Alonso

Maio de 2009. Os produtores das Correspondências Filmicas, projeto espanhol que sugere a troca de cartas cinematográficas sobre processos criativos de cineastas geograficamente distantes, propõem a tarefa a dois bruxos influentes e incômodos do cinema contemporâneo: Lisandro Alonso e Albert Serra. A primeira resposta do trovador argentino é a negação, não há tempo. A segunda, mais de um ano após, muda tudo: surge a inusitada ideia de colocar Misael Saavedra, ator/personagem de seu primeiro e já célebre longa-metragem, A Liberdade (2001), entre cavalos e cachorros, vestindo o traje de um militar dinamarquês do século XIX. No fim, Sin Título (Carta para Serra) (2011) retoma o homem, mas em sua persona já conhecida, ao lado de uma mulher e de vários cachorros. Surge um incômodo, o desaparecimento de um dos cães, o Jersey, provavelmente espantado pelos tiros de um misterioso caçador. A busca é interrompida por um corte brusco. Ainda naquele ambiente, um sujeito de outro tempo e espaço começa a ler uma história, escrita num pedaço de papel, há muito tempo, em uma terra distante, um homem perdeu seu cachorro…

A leitura segue. O homem dessa história, Diego Zuluaga, era o coronel encarregado do processo civilizatório no deserto argentino no século XIX. Sóbria, a narração detalha seu enorme e assustador cachorro da raça Jersey, introduz o sentimento de medo e respeito que esse homem provocava entre os selvagens e os cabeças de coco, mas também seus segredos, sua possível origem indígena, sua loucura – uma abertura para momentos de pura fantasia (em uma das batalhas, soldados transformam-se em centauros). A história termina com a introdução de novos personagens: as cabeças cortadas foram as primeiras coisas que impressionaram Michael Dumanis quando ele chegou ao forte com sua filha de 12 anos e toda sua comitiva de agrimensores, médicos e engenheiros, enviados pelo governo central para ganhar terreno em direção ao desconhecido. Nos créditos finais, descobrimos que o homem que lê é o escritor argentino Fabián Casas, que àquela altura estava trabalhando ao lado de Alonso no roteiro de um novo filme intitulado Jauja (2014).

Aparentemente despretensiosa (são 20 minutos contra os 140 de Albert Serra), a pequena carta de Alonso não apenas introduz o universo em que tudo se perde em Jauja, como põe em obra uma espécie de metamorfose. É a transição da ideia de cinema que o consagrou no início dos anos 2000 – em filmes como a já citada estreia e Os Mortos (2004), de jornadas solitárias, um tanto indeterminadas, acompanhadas por um olhar paciente e sereno, sob o signo quase absoluto da observação – à necessidade de uma aventura abertamente fantasiosa, que parte de uma premissa bem definida.

É claro que se observarmos a filmografia de Alonso de forma atenta, perceberemos uma crescente abertura a esse tipo de narratividade mais explícita: a câmera onírica com os cadáveres na abertura de Os Mortos, o reencontro conceitual com os protagonistas dos dois primeiros filmes num cinema de Buenos Aires que exibe um próprio filme de Alonso, Os Mortos, em Fantasma (2006), ou mesmo a possibilidade de filmar um detalhe, o chaveiro com uma inscrição reveladora em Liverpool (2008). Aos poucos, para além do presente radical, da realidade puramente física de A Liberdade, seus filmes começam a reverberar alguns enigmas a partir de recursos mais tradicionais da narrativa cinematográfica.

Mas é notável. O cineasta que dizia não ter interesse em contar histórias começa a cair no encantamento das palavras e nos desdobramentos (estéticos, dramatúrgicos, narrativos) que o ato de contar ficções, em seu sentido mais desconcertante – o da necessidade humana de recriar o que está aí – podem oferecer. Confirmando as suspeitas da correspondência, a abertura de Jauja traz uma cartela explicativa sobre essa terra mítica que seduziu a imaginação europeia após as invasões e descobertas no continente americano (referência preciosa sobre o tema é o artigo “Paisagens Sonhadas: Imaginação Geográfica e Deriva Melancólica em Jauja”, de Angela Prysthon, apresentado na Compós em 2015):

Os Antigos diziam que Jauja era uma terra mitológica de abundância e felicidade. Muitas expedições buscaram o lugar para verificar. Com o tempo, a lenda cresceu de uma maneira desproporcional. Sem dúvida, pessoas exageravam, como sempre. O único que se sabe com certeza é que todos os que tentaram encontrar esse paraíso terrestre se perderam no caminho.

Como em outros filmes de Alonso, ainda estamos bem longe de Buenos Aires, mas a metamorfose parece completa quando encontramos o primeiro plano: uma janela 1:33.1 com bordas estilizadas, destacando a materialidade (e a teatralidade, por que não?) do fotograma. A moldura enquadra uma conversa posada entre pai (Viggo Mortensen, pela primeira vez um rosto famoso no cinema de Alonso) e filha (Viilbjørk Malling Agger), fantasiados de dinamarqueses do século XIX, numa paisagem que sugere uma imensidão desértica. Ela diz: Pai, por que eu não posso ter um cachorro?

Os mil e um rumores

Os rumores correm rápido no deserto, não? O comentário acima, em uma das noites mais azuis que o cinema já viu, vem de um dos militares. A essa altura, já ouvimos sobre um grande baile na casa do Ministro da Guerra, o assistente anão que manda no tenente Pittaluga, a tribo de ladrões comandada por Zuluaga, esse coronel que enlouqueceu e passou a andar travestido no deserto, o desaparecimento de seu cachorro Jersey. Mas certamente não vimostumblr_nr4v1dFAfS1uqkf7co4_r2_1280 muita coisa: os homens estão imobilizados, à espera de uma missão qualquer naqueles quadradinhos de imagem pintados por Alonso. E os rumores, enquanto isso, se acumulam. A sinopse de Jauja fala sobre a fuga de uma garota – e ela de fato acontece – mas o que condiciona a nossa imaginação são as tais habladurías del mundo, os rumores (ou as fofocas, como quiserem), reclamados pejorativamente pelos soldados inertes que curiosamente vivem alimentando tudo isso. São as habladurías as paredes do labirinto que Lisandro Alonso criou no meio dessa Patagônia habitada por estrangeiros – as fricções da linguagem também engendram as ficções, basta lembrar das palavras que o dinamarquês usa para anunciar o desaparecimento da garota: mi hija es invisible. Pois não vem da terra, do céu ou do clima de um paraíso terrestre qualquer delírio imposto aqui (aliás, a natureza demonstra até um certo desprezo pelos sujeitos), tampouco de uma punição divina contra a ganância humana, mas daquilo definido pela frase aparentemente mais irrelevante da cartela introdutória: sem dúvida, pessoas exageravam, como sempre.

O pequeno comentário direciona absolutamente tudo o que veremos em Jauja: é o desejo pelos relatos fantasiosos, a aventura humana em sua forma mais lúdica e irresponsável, mas também a eternidade – o como sempre – dessa chama criadora. Tudo isso faz com que esse filme pontuado por silêncios, tempos dilatados e descontinuidades tenha uma potência extremamente especulativa. A situação de espera não vem ao acaso: em ponto morto, os personagens estão entre algo que aconteceu (os vestígios) e algo que poderá acontecer (os rumores). Ao romper com o fluxo natural das coisas, a fuga da filha acaba impondo uma chance maior de alucinação, unindo essas duas assombrações narrativas. Se os vestígios remetem ao passado, à história argentina, a expansão violenta contra os povos indígenas na Patagônia revisitada como um teatro de bonecos (aquele encontrado pela menina na água certamente não é o único do filme), mas também à história do cinema, ao faroeste, esse gênero pesado, difícil de ser retomado; os rumores levam ao futuro, a uma possibilidade, ao sonho, ao delírio. Jauja joga com essa relação, sugerindo uma circularidade temporal bem aberta. Mas Alonso sempre foi um cineasta de cintura dura. Não há, pensando em diretores que realizaram filmes aparentemente próximos, a sensualidade atmosférica de um Apichatpong Weerasethakul ou o humor oportuno de um Miguel Gomes. Marcado por planos-tableaux, por tantas cenas descontínuas, Jauja acaba tendo um ar de esboço. Parece uma coleção de pequenos trechos interrompidos. Algo bem diferente do universo concreto do texto lido por Fabián Casas em Sin Título (Carta para Serra) e da linearidade que sugere a própria cartela introdutória.

Talvez por isso que o filme apenas ensaie uma aproximação a esse cinema das mil e uma ficções, um espírito contemporâneo que une obras díspares como Mal dos Trópicos (2004), Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), de Apichatpong, Conto de Cinema (2005), A Visitante Francesa (2012), e tantos outros de Hong Sang-soo, Cópia Fiel (2010), de Abbas Kiarostami, Holy Motors (2012), de Leos Carax. Em todos, como bem definiu um personagem de A Cara que Mereces (2004), estreia de Miguel Gomes, “para ouvir uma história é preciso ter paciência com as novas histórias que surgem antes do fim”. São filmes que promovem, sem avisos ao espectador, jogos de espelhos e releituras sobre suas próprias narrativas. Mesmo que muitas vezes pareçam recomeçar a cada cena, ao contrário de Jauja, nunca são lacunares, dispersivos, elípticos: as mil e uma narrativas envolvem o espectador dentro de uma linearidade desconcertante. Até há um movimento rumo a esse cinema no filme de Alonso, quando o rarefeito se materializa e os rumores tornam-se aparições concretas. É quando Jauja sai do terreno das probabilidades e é tomado por frases assertivas (“um homem é todos os homens”) e até mesmo comentários metalinguísticos (o cachorro que se machuca quando não entende alguma coisa, por exemplo) sobre a nossa confusão diante de tudo.

De uma forma hesitante, portanto, o argentino pede passagem entre a geração de cineastas que afirmam que um filme pode se tornar outro, num golpe de olhos, sem deixar de ser o mesmo. Voltando ao Sin Título (Carta para Serra), ao finalizar o texto, Casas encara a câmera e diz de modo solene: vamos? Reaparecem em cena, então, Saavedra, a esposa, o caçador, os cachorros. Todos seguem o narrador. A câmera de Alonso ensaia o movimento, mas pára no meio do caminho e permanece contemplando a natureza solitária. Ali ainda não havia certeza desse novo caminho. Mas Jauja, com tantas migalhas mágicas, nos dá alguma? A impressão é a de que o longo processo de maturação de um argumento concreto que envolvia uma sangrenta e real conquista do deserto, a presença dos europeus nesse contexto, e as pequenas fábulas germinadas a partir daí, serviu apenas de base para que o argentino encarasse uma bela e incerta aventura de reinvenção.

Publicado originalmente em 2015 na edição 26 da Revista Teorema

Jauja: las habladurías del mundo