A Dama na Água vai ao paraíso

lady-in-the-water-1

Fui ao cinema esperando um diálogo umbilical com Corpo Fechado e Fragmentado, mas a estreia de Vidro, a nova maravilha de M. Night Shyamalan, retalhou as expectativas e me fez rever tudo o que mais admiro em meu filme favorito do diretor: A Dama na Água. 

Aproveito para resgatar uma versão revisada de um texto antigo sobre um dos inimigos mais malditos da indústria cinematográfica americana, aquela que costuma assassinar reputações quando elas deixam de dar lucro ou começam a revelar, tal como fez o personagem Monsieur Verdoux de Charles Chaplin, mais do que deveriam sobre as fraquezas de seu próprio sistema.

A FANTASIA ENVERGONHADA

A rejeição enorme ao filme diz muito sobre o momento que o cinema popular de Hollywood viveu nos anos 2000. Basta lembrar que a obra é contemporânea à incensada e influente trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan. Falava-se muito da verve realista, da tradução do sentimento americano pós-11 de setembro, da Gotham City sombria como a metáfora ideal para a Nova York do século vinte e um; mas pouco sobre o que surgia ao mesmo tempo: super-heróis com vergonha das fantasias (o azul virou cinza; o vermelho, vinho escuro…), a necessidade quase desesperada de estabelecer uma verossimilhança psicológica em personagens de natureza completamente ficcional, uma falta de tato com a inventividade e o senso de humor. Alguns podem argumentar que isso vem da matriz, mas basta pegar O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, praticamente um Bandido da Luz Vermelha em quadrinhos, para notar que um retrato sombrio de um super-herói não precisa abandonar a irreverência e a imaginação.

Um dos aspectos mais sintomáticos desse período é que quase todas essas trilogias de heróis da primeira década do século levam um longa-metragem inteiro – com mais de duas horas de duração! – para convencer o espectador de que alguém fantasiado vai sair pelas ruas combatendo o crime. Isso é algo que uma história em quadrinhos sempre resolveu em um quadro, em uma imagem apaixonante – e que Shyamalan também resolve em uma cena: o protagonista de A Dama na Água, vale lembrar, também é um frustrado administrador de tragédias pessoais, também tem um passado que pesa; da mesma forma, o contexto americano é esmagador, a Guerra do Iraque está presente, mas tudo isso entra naturalmente dentro da grande fantasia, não precisa formar uma espécie de prelúdio para que a ação enfim aconteça.

Não é estranho, portanto, ver obras que abraçam com gosto o universo dos quadrinhos (o Hulk de Ang Lee, outro maldito da época, mas já podemos até citar os clássicos fora de moda de Richard Donner e Tim Burton), um tanto marginais dentro do status quo do cinema de entretenimento, marcado por heróis e cineastas que no fundo não acreditam na própria fantasia.

E se A Dama na Água foi pintado imediatamente como o patinho mais feio, apesar de ser um dos filmes mais belos (aqui no sentido visual mesmo: das cores, da luz, das composições) do nosso tempo, é porque propõe uma relação com a fantasia que não encontrou eco dentro do império cinzento da indústria hollywoodiana daquela época. Como falar dos Estados Unidos do início do século vinte e um com uma jovem ninfa de outro mundo, uma fera com pelos esverdeados, uma águia gigante e macacos protetores? Ou com uma trupe de personagens que inclui um sujeito que malha apenas um lado do corpo, um caricato crítico de cinema arrogante e amargo, um garoto que encontra a verdade na caixa de cereais? O grande trunfo do filme de Shyamalan, e que diz muito sobre o espírito de sua obra, é que ninguém duvida da existência dessas criaturas (dos seres e dos vizinhos de outro mundo!). E assim uma fantasia alimenta a outra: a aparição da jovem ninfa, a lenda contada pela velha chinesa… Ver para crer, crer para ver. Ou, como poderia ter dito Méliès: no cinema isso é simples como arrancar a própria cabeça.

O pior de tudo é que os cineastas e os heróis macambúzios acabaram gerando outra figura: o espectador dotado de um ceticismo arrogante e de um complexo de épico (aquele da música do Tom Zé), que muitas vezes não admite ver uma obra que toma a fantasia como realidade e brinca com a narrativa de modo livre, bem-humorado, inclusive revelando o prazer da zombaria ao olhar para si. Enquanto o aspecto metalinguístico dos heróis cinzas levam os filmes ao questionamento (e a confirmação messiânica) sobre a necessidade desses seres extraordinários em uma sociedade americana doente (a mesma de A Dama na Água, diga-se), o de Shyamalan remete ao questionamento sobre as regras do jogo da própria história, ao quebra-cabeça em relação ao papel que cada um deve ocupar para que a fantasia siga até o fim. O mundo não precisa da jovem ninfa, o mundo precisa das histórias sobre ela.

O MONSTRO TEM DUAS CABEÇAS 

lady in the water 44M. Night Shyamalan é um tipo cada vez mais raro dentro do cinemão contemporâneo. É o roteirista engenhoso, o rei das reviravoltas que nos obrigam a repensar tudo o que acabamos de ver; mas também é o cineasta genial, seguidor da melhor tradição dos grandes nomes de Hollywood, a de quem consegue, a partir de um movimento de câmera ou de uma composição inventiva ou de uma decupagem sensível (às vezes tudo isso ao mesmo tempo), transformar uma cena aparentemente banal que em palavras não despertaria muita coisa, num momento cinematograficamente maravilhoso (um exemplo: a abertura com a caça às baratas de Paul Giamatti).

O prazer de contar uma história aliado ao prazer de filmar uma história: A Dama na Água é um caso excepcional porque pega um momento de ápice. A certeza do que fazer possibilita uma obra completamente consciente de suas armas, mas que nunca abre mão da invenção e do mistério. Poucos filmes aproximam personagem e espectador de forma tão honesta. Dividimos, ao longo da narrativa, a caça ao tesouro: quem pode ser tal personagem, como deve acontecer a cena, como completar uma história que já está totalmente escrita? Esse mundo descrito, previsto, precisa apenas acontecer. Não é o mesmo trabalho que o cineasta tem diante do roteiro? Quando acontece essa transferência dos prazeres do cinema (da criação com a câmera à criação dentro da sala escura), há sempre um momento arrebatador. Pois entre a farsa e o terror, a história de ninar e a comédia surrealista, num filme justamente sobre a reencenação de uma história, Shyamalan deixa claro que é preciso pensar cada cena como um momento glorioso e não apenas como uma sequência de planos destinados e narrar alguma coisa. E sugere: o espectador também pode pensar assim.

Se quisermos tirar o filme da solidão, portanto, precisamos procurar a companhia da experimentação visual dos últimos filmes de Godard (como sugeriu David Bordwell) ou de um Histórias Extraordinárias (2008) do argentino Mariano Llinás, filme de quatro horas e uma infinidade de narrativas, que chega a promover uma longa e deliciosa digressão sobre um personagem para depois dizer a história é outra e iniciar mais uma (e também deliciosa) narração (não é a mesma coisa que acontece em A Dama na Água após descobrirem que as hipóteses sobre a fábula estão todas equivocadas?). Outra sugestão preciosa de Shyamalan: o espectador também pode errar.

Também podemos aproximá-lo ao cinema de cores e sensações Apichatpong Weerasethakul e vê-lo ao lado de uma obra como Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), em que seres como o fantasma de uma mulher e um homem-macaco convivem com naturalidade com toda a família. O lugar do filme é em outro mapa do cinema, o da necessidade da fabulação para que o mundo possa existir em sua dimensão mais prazerosa.

Alguém já falou: o mundo é aquilo que vemos. Mas se perguntarmos o que é este nós, o que é este ver e o que é esta coisa ou este mundo, penetramos num labirinto de dificuldades e contradições. Há aqueles que reagem a esse pulo de interrogações despertando a pior paranoia possível (quantos heróis dos anos 2000 mereceriam uma sessão de terapia no lugar de um filme?). Há outros, e é o glorioso caso de M. Night Shyamalan, que criam um grande parque de diversões dessa meada cheia de dobras, desconfianças e veredas instigantes. 

 

 

A Dama na Água vai ao paraíso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s